Como as parteiras podem ajudar a melhorar o SUS?

Soraya Fleischer
Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília
E-mail: soraya@unb.br

Durante os anos de 2004 e 2005, eu morei em algumas cidades do Pará, como Belém, Breves e Melgaço. Antes disso, eu tinha morado alguns meses em Olinda/PE e Novo Cruzeiro/MG, Oliveira dos Campinhos/BA e nas cidades de Antigua e Quetzaltenango na Guatemala. Em todos esses lugares, eu busquei conhecer, ficar e ouvir histórias de parteiras. Sei que as parteiras são responsáveis por menos de 10% dos partos que acontecem no Brasil. Parece pouco quando pensamos nos números de forma absoluta. Mas se pensamos os números dentro das realidades locais, a dimensão é outra. Nos estados do Norte, por exemplo, em algumas localidades, elas atendem 60 ou 70% dos partos que acontecem. Nesses lugares, ser “parteira” é ofício reconhecido por qualquer transeunte na rua, todo mundo sabe indicar uma parteira conhecida, muitas pessoas passam a relatar suas histórias de nascimento, quando foram recebidos por uma parteira. Quase todo mundo tem sua “mãe de umbigo”, como me diziam. Ela é um personagem facilmente compreendido.

Quando eu realizei essa pesquisa, eu estava interessada em conhecer essa personagem que, até aquele momento, surgia na literatura acadêmica como um sujeito a ser “resgatado” do passado longínquo, como um sujeito a servir de “modelo” para profissionais de saúde desempoderados dentro dos hospitais. São motivos legítimos para se pesquisar as parteiras. Mas eu desejava conhecê-las para além de sua utilidade filosófica. Eu queria entender quem é esse personagem, como ela vê seu trabalho no século XXI, como ela é percebida pelas pessoas de sua ilha, comunidade ou bairro. Um dos aspectos importantes dessa contemporaneidade das parteiras, a meu ver, é sua relação com os serviços oficiais de saúde. Meu pressuposto aqui é de que elas não estão isoladas, invisibilizadas, esquecidas nos grotões do interior do país. Essa é uma visão de quem está olhando a partir dos “centros”, como as capitais, os hospitais, as universidades, a Esplanada dos Ministérios. Na localidade onde atuavam, as parteiras, pelo menos as dezenas que eu conheci naqueles anos, eram bem conhecidas, demandadas e cheias de opinião sobre a prática do partejar e sobre a atuação da Secretaria de Saúde de seu município. Elas eram atores atuantes e vocais, pelo menos naquele microcosmo.

Hoje, eu desejo trazer para vocês algumas passagens e histórias que foram registrados em meus diários de campo. O diário de campo é um instrumento central no trabalho das antropólogas porque é onde escrevemos o que nos contam, o que ouvimos e observamos nos locais onde fazemos nossas pesquisas. Eu ouvi centenas de boas histórias, mas hoje quero trazer cinco histórias que revelam especificamente a relação que as parteiras estabeleciam com os serviços de saúde. Julgo que essa relação é fundamental por dois motivos:

1) Primeiro, atentar para a relação entre as parteiras e os serviços de saúde é reconhecer que elas não estão “fora do mundo” ou “isoladas” do nosso tempo presente. Embora atendam nas casas (delas ou das pacientes), elas sabem muito bem o que está acontecendo no nível dos serviços oficiais de saúde. Quero, portanto, revelar essas opiniões, com o objetivo de reforçar que as parteiras, embora algumas sejam analfabetas, não escolarizadas e pobres, elas observam, avaliam e opinam com muita clareza sobre os serviços de saúde e a administração do município. A perspectiva delas é privilegiada porque, além de serem mães e matriarcas de extensas famílias e serem lideranças comunitárias/religiosas, elas atendem dezenas de mulheres e têm uma larga experiência com as questões de saúde reprodutiva.

2) Segundo, quando pensamos no SUS e desejamos fortalecê-lo como um sistema de fato universal, democrático, aberto e público, precisamos considerar todas as pessoas que contribuem para realizá-lo. Isso significa levar a sério as pessoas que, mesmo não formalmente dentro do Sistema, estejam trabalhando – muitas vezes de modo voluntário – para que a população tenha mais assistência e saúde. As parteiras, bem como os demais terapeutas populares que temos no país, são esse importante conjunto de atores. Considerar a experiência prática e a trajetória biográfica dessas mulheres (e alguns homens) é um passo importante para conhecermos melhor o SUS e, mais importante, para continuarmos cobrando – de forma crítica, inclusive – que o SUS de fato aconteça cada vez melhor todos os dias no Brasil e que seja cada vez mais inclusivo em relação a quem trabalha para e com ele, mesmo de forma indireta e voluntária como as parteiras. Conhecer o SUS de dentro é uma estratégia que o fortalece diretamente.

Tomarei a liberdade, portanto, de contar cinco histórias de uma das paragens onde mais frequentei. Tive a sorte de viver em Melgaço, uma pequena ilha do arquipélago do Marajó paraense, e, mais importante, viver na casa de D. Tabita Bentes do Santos, uma parteira muito famosa na região que foi mais conhecida pelo seu apelido, D. Dorca. Ela foi a pessoa que mais me ensinou sobre o partejar nessa Amazônia ribeirinha e também sobre o funcionamento no SUS no Brasil. Infelizmente, faleceu em 2010, com quase 70 anos.

Resgatei algumas histórias de Melgaço e de Breves, cidade um pouco maior a duas horas dali, para pensarmos na relação que as parteiras estabelecem e podem estabelecer com os centros de saúde, os hospitais, os conselhos municipais de saúde e as Secretarias municipais de saúde de suas localidades. Hoje, mais do que tudo, eu quero falar dos dilemas contemporâneos que as parteiras vivenciam no dia a dia de seu trabalho em prol das mulheres gestantes, parturientes e puérperas. Lembrando que parteira, muito mais do que parto, atua para garantir os direitos que mulheres e seus filhos devem ter à saúde gratuita e total. Eu costumo dizer que as parteiras brasileiras são, além de obstetrizes populares (atuando no pré-natal, parto e puerpério das mulheres), também enfermeiras populares (porque atendem todo tipo de ocorrência em termos de adoecimento), psicólogas populares (porque socorrem aqueles com crises, nervoso, distúrbio mentais), puericultoras populares (porque cuidam dos bebês e crianças de suas clientes), assistentes sociais e advogadas populares (porque ajudam as mulheres a terem acesso a benefícios e direitos de várias ordens). Elas são profissionais multi-talentosas.

Para ter acesso as histórias contadas por Soraya Fleischer, clique aqui

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