“Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser parteira”

A frase acima é o refrão de uma música cantada pela parteira Maria Adelina, conhecida como Dona Tereza, moradora do município de Santa Maria da Boa Vista, no sertão de Pernambuco. Com mais de 2.200 partos no currículo, ao longo dos 50 anos destinados ao ofício de partejar, Dona Tereza se tornou parteira por um acaso.

"Nunca cobrei nada para fazer partos, pelo contrário, eu cansei de levar coisas da minha casa para dar as mulheres"

“Na zona rural onde eu morava uma mulher ia ter menino e como não tinha nenhuma parteira próxima, eu ajudei a fazer o parto. Daí por diante, algumas pessoas vieram me chamar para ajudar, mas eu tinha medo. Um dia, um homem veio a minha porta me pedir auxílio para o parto do seu filho, mas eu não fui porque meu marido tinha passado muito tempo fora e chegou naquele dia. Depois, fui saber como tinha sido o parto e me disseram que a mulher tinha tido menino sem a ajuda de ninguém. Fiquei muito triste. Me deu uma dor tão grande por dentro que eu chorei. Naquele momento, eu prometi a Nossa Senhora do Parto que, se ela me desse força e coragem pra eu fazer parto, nunca mais eu deixava uma mulher só. De lá pra cá eu nunca mais parei”, conta, emocionada.

Dona Tereza foi uma das 65 participantes, entre parteiras, profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e representantes de movimentos sociais, do Encontro Nacional Parteiras Tradicionais: Inclusão e melhoria da qualidade da assistência ao Parto Domiciliar no SUS, promovido pelo Grupo Curumim, no início desse mês, em Brasília. Ela será a representante de Pernambuco na Rede Nacional de Referência e Colaboração Para Inclusão do Parto Domiciliar assistido por Parteiras Tradicionais no SUS, criada durante o encontro, que servirá de referência e apoio aos gestores para a execução das políticas de inclusão do parto domiciliar no Sistema Único de Saúde.  Na entrevista abaixo, ela fala, entre outras coisas, sobre sua vida, a falta de reconhecimento do trabalho das parteiras e manda um recado aos governantes.

Para a senhora, o que é ser parteira?

Ser parteira foi um dom que Deus me deu. Eu conheço quando uma mulher está grávida só pelo olhar. E se uma mulher estiver para engravidar eu também conheço pelos seus olhos, porque os olhos ficam muito vibrantes, por causa dos hormônios.

Como é seu trabalho a partir do momento que a senhora sabe que uma mulher está grávida?

Eu acompanho a mulher desde o início da gravidez e nunca uma criança morreu nas minhas mãos.  Quando tem complicação eu sei logo, porque na oração que eu rezo, na estrada eu erro a oração se alguma coisa estiver complicada. Daí, eu chego, faço meu diagnóstico e levo para o hospital.

 E como é a sua relação com os profissionais de saúde que atendem essas mulheres?

Alguns médicos ficam com raiva porque, na maioria das vezes, eles acham que a criança nasce de parto normal. Se eu digo que não nasce é porque não nasce. Eu já briguei muito com alguns médicos e, quando a mulher chega cirurgiada, eu passo na cara. Eles aprenderam em livro, eu aprendi na prática, dada pela graça de Deus.

 A senhora disse que nunca cobrou nada para fazer parto. E como conseguiu sustentar sua família?

 Eu era agricultora e tinha um marido para me sustentar. Depois de um tempo, arrumei emprego de agente de saúde, onde trabalhei 17 anos. Eles queriam proibir que eu fizesse parto, porque a lei não permitia Agente Comunitária de Saúde (ACS) fazer parto. Eu disse logo que se fosse para eu deixar de fazer parto eu largava o emprego. Há dois anos eu me aposentei como agricultora e me encostaram como ACS por tempo de serviço. Eu vivia dessa renda, pois nunca cobrei para fazer parto. Hoje eu estou nessa luta para que as parteiras mais jovens tenham seus direitos garantidos.

Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas parteiras?

Todo mundo acha lindo, mas não raciocina que as parteiras também são gente e precisam se alimentar, que precisam de uma roupa para vestir. Desde que o mundo é mundo que existe parteira tradicional, e elas sempre trabalharam de graça, porque não tinha médico nem hospital. Quando a sociedade começou com a história de médico, escantearam as parteiras. Hoje, um parto domiciliar custa em média cinco mil reais, e uma parteira não tem o direito de receber nem dez reais pelo trabalho. Isso é uma injustiça!  

O que a senhora diria para os governantes?

Eu queria que os governantes tivessem olhos humanos para a nação parteira e vissem que somos nós quem pegamos os meninos e as meninas que mais tarde serão eleitores. Muitos dos governantes, inclusive, nasceram com a ajuda de parteiras. O que queremos é o reconhecimento do nosso trabalho, porque as parteiras é que constroem a nação. Nós vamos lutar para dar a volta por cima. O plano que nós fizemos durante o encontro, vamos querer o retorno até junho de 2011.

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Comments
One Response to ““Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser parteira””
  1. Thaise diz:

    Nossa, os governantes são relamente injustos, como ela disse, parteira existe desde q o mundo é mundo, só pra eles só serve de v´vula de escape, pra diminuir a quantidade de grávidas no hospital do sertão, quando ela diz que ERRA A REZA e sabe que ñ vai nascer, é nada mais que Deus mostrando pra ela, q ñ vai, pois Deus vê a bondade e amor em seu coração, e ñ a deixa errar! Parabéns élo seu lindo trabalho!

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