Mulheres que trabalham como parteiras se reúnem em Brasília para pedir a inclusão no quadro funcional do SUS

Fonte: Correio Braziliense

Do mais bem equipado hospital em uma moderna capital como São Paulo a partos realizados na beira de rios à luz de candeeiros, são muitas as formas de vir ao mundo, no Brasil. No país de proporções continentais, cerca de 35 mil nascimentos acontecem anualmente pelas mãos de parteiras tradicionais. Mulheres que nunca assistiram a uma aula de anatomia, mas que aprenderam na prática a ciência dos últimos momentos da gestação. Para representar essas trabalhadoras essenciais para o sistema de saúde em que o serviço público ainda é escasso, cerca de 30 parteiras de aproximadamente 15 estados estão reunidas em Brasília. Além do aumento na parceria já existente em alguns locais com os governos municipais, estaduais e federal, o grupo quer ser incorporado ao quadro funcional do Sistema Único de Saúde (SUS).

Paula Viana, coordenadora do Grupo Curumim, que coordena a reunião em Brasília, aponta como justo elas receberem uma remuneração pelo serviço que prestam. “Falo de direitos trabalhistas, previdenciários”, diz. O formato no qual isso se dará, de acordo com Paula, precisa ser discutido internamente no Ministério da Saúde. Há correntes contrárias e favoráveis. Oficialmente, a pasta destaca que “sempre esteve e continua aberta a ouvir as sugestões das representantes das parteiras paralelamente às discussões no Congresso”, referindo-se ao Projeto de Lei nº2354/2003, cujo teor são os direitos trabalhistas dessas mulheres.

Com a ajuda de uma doula, Paloma teve a filha Catarina em casa, debaixo do chuveiro: 'Fiz uma oração, conversei com a minha filha, e mandei ver' (Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press)  
Com a ajuda de uma doula, Paloma teve a filha Catarina em casa, debaixo do chuveiro: “Fiz uma oração, conversei com a minha filha, e mandei ver”

Apesar de haver capacitação dada pelo governo federal às parteiras tradicionais há cerca de 10 anos, ninguém sabe quantas elas são no Brasil. Associações estimam em até 30 mil, o governo federal fala em mil. Lena Peres, secretária de promoção e defesa dos direitos humanos da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República, defende a inclusão delas no sistema de saúde, mas destaca alguns obstáculos: “No país, só é reconhecido como profissão aquilo que vem do conhecimento formal. Outros profissionais que já fazem essa atividade do parto domiciliar poderiam se enquadrar, mas as parteiras tradicionais ficariam num hiato. Por isso temos que verificar a melhor forma de executar essa inclusão”, diz Lena.

Paloma Caetano Giordano fez a opção pelo parto em casa. Primeiro teve de derrubar o mito da impossibilidade do método natural depois do nascimento de Rafael, o primeiro rebento, por cesárea. Depois veio a resistência de parentes e amigos. “Fui chamada até de imbecil”, conta a bancária de 32 anos. Depois de nove meses se preparando, Paloma teve Catarina, hoje com um ano e meio, debaixo do chuveiro e antes mesmo de seu obstetra, que topou acompanhá-la em domicílio, chegar. “Senti aquela vontade de fazer força, fiz uma oração, conversei com a minha filha, e mandei ver. Forcei três vezes e ela nasceu”, lembra. A ausência do médico foi recompensada pela presença da doula, uma profissional especializada em acompanhar mães em trabalho de parto.

Mais de 5 mil vezes

Ela bem que tentou anotar todos os nomes de bebês e mães que ajudou desde 1970. Em fichas que acumula, Hilda Rosa dos Santos consegue contabilizar, com confiança, 5.180 partos. “Naquele tempo não tinha hospital. Às vezes, eu saía em um dia e só voltava no outro para casa. Ia a pé, a cavalo, de bicicleta”, lembra a parteira de Seabra (BA). Tanto trabalho levou a mulher a perder o marido, cansado de vê-la “mais fora do lar que dentro”, mas rendeu-lhe uma recompensa. “Na rua, todo mundo me chama quando saio. É dinda para lá, mãe Hilda para cá. Já fiz partos de até três gerações de uma mesma família”, conta a sorridente senhora de 72 anos.

Como nunca cobrou pelo trabalho, Hilda recebia “algum agrado” quando fazia parto de pessoas mais endinheiradas. “A maioria não tinha condição nenhuma. Cansei de entregar comida para o pai da criança levar depois de ver a situação da família”, conta a mulher, que até hoje faz partos. A índia potiguara Lindinalva Ferreira da Silva, de 52 anos, é outra incansável. Carrega no currículo 350 partos, a maioria realizada na aldeia Akajutibiró, localizada em Bahia da Traição (PB).

Lindinalva sobrevive do salário como agente de saúde, mas não dos partos. “Seria muito bom se tivéssemos alguma remuneração, pois a dedicação é grande. Não deixo ninguém me esperando”, lembra. Hilda também se ressente de não poder contar com uma previdência depois de 40 anos na ativa. Apesar disso, tanto ela quanto Lindinalva ficam felizes ao lembrar dos bebês que vieram ao mundo auxiliados por elas. A dupla, que faz parte do grupo reunido em Brasília, também comemora o fato de, em seus municípios, poder contar com as orientações de médicos e enfermeiros, bem como ter acesso a materiais importantes, como gazes, algodão, álcool e pinças.

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