5 de maio, Dia Internacional da Parteira

Soraya Fleischer
Professora do Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília

Anunciação, uma das parteiras de Melgaço/PE

Entre os anos de 2004 e 2005, estive morando por muitos meses na região da cidade de Melgaço. Essa cidade fica na região sul do Arquipélago do Marajó, no Estado do Pará. À época, Melgaço tinha aproximadamente 4.000 habitantes em sua sede urbana e contava com 22 parteiras, atuando de forma heterogênea, atendendo mais ou menos partos nas residências dos moradores locais.

Minha presença se devia ao fato de que eu estava em plena pesquisa de campo etnográfica, para a realização de meu doutorado em Antropologia. Tive a oportunidade de viver com D. Tabita Bentes dos Santos, uma parteira muito generosa e didática e conviver com suas colegas e vizinhas que também tinham aprendido a “aparar meninos”, como se auto-intitulavam.

Lembro de um dia em que estávamos em casa, no final da tarde. Surgiu uma moça bastante jovem e franzina. Quando entrou no quarto, para minha anfitriã lhe atender, vimos que lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela começou a explicar que tinha acabado de levar uma surra das irmãs de seu marido, que não queriam que o casal permanecesse junto. O marido estava “tirando palmito” no interior do município e voltaria só em alguns dias. D. Dorca, como D. Tabita era conhecida, gentilmente forrou o chão com um lençol e pediu para a moça se deitar. “Puxou” sua barriga e verificou que, apesar dos hematomas que víamos nas costas e nas pernas da moça, o bebê que levava dentro de si estava bem e ativo. “Puxar” é uma das práticas de diagnóstico e acompanhamento mais comuns que as parteiras podem oferecer durante a gestação, ao passar as mãos pelo ventre, localizam o feto, identificam seu tamanho, sexo, posição e condições de saúde. A moça voltou para casa mais tranqüila e também com conselhos para não se deixar apanhar, buscar ajuda da família, dos vizinhos e do marido. Não raro, em situações como essa, D. Dorca prestava uma visita aos agressores e tentava entender suas acusações e, ao mesmo tempo, apresentar as necessidades específicas de sua paciente gestante.

Numa madrugada escura e sem lua, fomos acordadas de sobressalto. Era o marido de uma senhora que a parteira vinha atendendo. Ele pedia que fôssemos até sua casa, onde sua mulher padecia com uma horrível hemorragia. Nos vestimos apressadas e em alguns minutos estávamos lá. D. Dorca “puxou” o ventre da moça, fez algumas perguntas, observou os comportamentos naquela pequena unidade doméstica. Em seguida, pediu que o marido fizesse um chá específico para o restabelecimento da esposa. Limpou a mulher e lhe acomodou na rede. Afastou as outras crianças do quarto e determinou que nenhum trabalho ou peso fosse requisitado dessa mulher nos próximos dias. Voltamos lá várias vezes até que a cor voltou ao rosto e a força voltou ao corpo dessa moça. A parteira me explicou, no caminho de volta para casa: “Essa daí teve foi um aborto. Ele é beberrão, gasta o dinheiro na pinga, não leva bóia para casa. Não cuida dela direito. E eu ainda acho que dá nela, você viu como estava machucada a pele da buchuda? Homem assim não vale nada. Ela tem que dar um jeito na vida dela, isso sim”.

Outra tarde, foi outro marido de uma “buchuda” que bateu palmas à frente de nossa casa. Ele vinha pedir para a parteira dar uma olhada na sua esposa grávida, que vinha se apresentando muito “mofina” nos últimos dias. Peguei a bicicleta, D. Dorca montou na garupa e pedalamos até a outra ponta da cidade. Ao conversar e examinar a moça, a parteira notou que esta carregava gêmeos e o parto aconteceria dali a uma ou duas quinzenas. Nos próximos dias, voltamos a essa casa várias vezes até o momento que parteira anunciou, “Seus filhos estão atravessados e não querem arredar dessa posição. Eu acho que esse parto é melhor para hospital”. A partir daí, D. Dorca ajudou essa família a conseguir uma consulta no Centro de Saúde local e viabilizar os trâmites para o transporte até a cidade mais próxima que contava com uma estrutura cirúrgica segura para a ocorrência de uma cesariana, caso a moça viesse a precisar.

Além das constantes visitas durante o período gestacional, D. Dorca e suas colegas atendiam os partos que aconteciam, geralmente, nas madrugadas melgacenses. Mas era visível a importância dessas atendentes depois do nascimento das crianças. Minha anfitriã voltava à casa da “parida” muitos dias seguidos ao parto. Lembro de várias mulheres que apresentavam dificuldades para amamentar. “O bico não formou”, “o bico rachou”, “a criança não sabe pegar o peito”, “o leite não desceu”, “o leite empedrou”, “o leite está fraco”, “o leite arruinou” eram somente algumas das situações que acometiam as jovens puérperas. A parteira lhes ensinava a oferecer o peito, a segurar a criança, a escolher o melhor momento e lugar da casa para amamentar. Ela também educava o marido, os demais filhos, vizinhas e a família extensa: a recém-parida precisava de sossego para resguardar e priorizar o bebê. Ela distribua tarefas, envolvia a todos na tranqüilidade idealmente recomendada para esses 40 dias de repouso e aleitamento.

Lembro também das vezes em que minha anfitriã acompanhou suas pacientes até o Centro de Saúde e depois ao Fórum de Justiça. Com o recém-nascido nos braços, a moça e o marido traziam-no para o “exame do pezinho” e depois para o registro civil no cartório. Era D. Dorca que apresentava essa família à enfermeira e depois ao Escriturário. Ela conhecia e abria os caminhos da burocracia estatal, garantindo que essa família fosse conhecida pelas estatísticas nacionais e beneficiária dos direitos que lhe  cabiam. Essa espécie de desfile pelas ruas da cidade até o hospital e o fórum também servia para exibir à comunidade que o trabalho da parteira tinha sido exitoso e ali se concluía. Ela estava, portanto, disponível e autorizada para as próximas demandas.

Neste 5 de maio, Dia Internacional das Parteiras, nada melhor do que conhecer um pouco melhor a realidade terapêutica e assistencial que estas senhoras oferecem às mulheres em Melgaço e a tantas outras milhares de gestantes, parturientes e puérperas ao redor do mundo. Além disso, nota-se que atender o parto domiciliar significa cuidar de muitas outras esferas que perpassam uma casa. As parteiras, no Brasil e em muitos outros países, oferecem um trabalho bem mais amplo do que apenas o momento do parto. Fica claro como elas zelam pelo bem estar destas mulheres, não só o que concerne ao seu corpo e sua prole, mas sobretudo à sua integridade familiar, moral e coletiva.

Ps. Nesse Dia 5 de maio de 2010, por coincidência e infelicidade para os movimentos de mulheres, D. Tabita faleceu. Tinha 69 anos e sofria de hipertensão. Durante uma passeata, por ela organizada, para homenagear as parteiras e, ao mesmo tempo, lutar pelos seus direitos, seu coração não suportou a emoção. Nossos sinceros agradecimentos por todo trabalho e cuidado que ela ofereceu aos filhos de Melgaço e ao exemplo de resiliência e generosidade que ela deixou ao mundo.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: